País

Visita Guiada: a colonização do Brasil contada em oito capítulos

O programa de história Visita Guiada vai mostrar, a partir de 21 de abril, alguns dos principais momentos da história do Brasil no período em que o país foi colônia de Portugal.

A história do Brasil durante o período em que o país foi colônia de Portugal será recontada com a ajuda de especialistas. O período que compreende de 1500 a 1822, quando houve a independência do território brasileiro, será mostrado em uma série de oito capítulos no programa Visita Guiada, da RTP, que estreia na segunda-feira, 21 de abril, no canal RTP2.

“O programa, que tem 11 anos, é um clássico. Mas, a partir de certa altura, tornou-se evidente que nós tínhamos que ir para outros países que foram territórios por onde a língua e a cultura portuguesa se derramaram. E, obviamente, o Brasil é o maior deles”, explica Paula Moura Pinheiro, autora, apresentadora e editora do Visita Guiada.

O programa parte da premissa de que o Brasil, enquanto unidade geopolítica e linguística, é uma criação portuguesa. Na sinopse, afirma-se que o país tem uma história épica e violenta, que resultou em um novo povo e uma nova nação. Para explicar o que ocorreu, além de imagens dos locais onde os principais eventos históricos tiveram lugar, foram entrevistados historiadores e especialistas brasileiros sobre cada uma das regiões onde foram feitas as gravações.

O primeiro episódio começa em Santa Cruz Cabrália, onde parou a armada de Pedro Álvares Cabral. Além das filmagens no local, o foco está na carta de Pero Vaz de Caminha, que comunica ao rei a descoberta da nova terra. “A questão da chegada era fundamental. Toda gente já ouviu falar da carta, mas, praticamente, ninguém leu”, diz Paula.

Para ela, a carta é uma descrição muito singular, porque Pero Vaz de Caminha está fascinado com os indígenas. E os indígenas, espantados com aquele povo que eles nunca tinham visto. “Portanto, é um espanto mútuo. E um momento único, que dura um instante”, afirma a jornalista. Neste episódio, a entrevistada é Sheila Hue, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, especialista em literatura de viagens do século XVI e responsável pela mais recente edição comentada da carta de Caminha.

No segundo capítulo, o tema é a fundação de Salvador, em 1540, criada para ser a capital da colônia, cujos detalhes das ruas e dos monumentos históricos são apresentados pelo historiador Evergton Sales Souza. Naquela época, Portugal não demonstrava muito interesse pelo Brasil e seus esforços estavam voltados para as riquezas do Oriente. Contudo, as contínuas invasões de corsários franceses fizeram com que a coroa portuguesa decidisse povoar o território, com receio de perder o controle sobre ele.

Salvador, o centro da escravatura

Um dos aspectos mais tenebrosos da formação do Brasil está no terceiro episódio: a escravidão de africanos levados para o país. Esse horror começa a partir de 1580 e vai crescendo, sendo que a Bahia foi o local com maior número de escravizados. No século XVII, havia um milhão de pessoas exploradas, dos quais 350 mil em território baiano. No século XVII, dos dois milhões de escravos, 900 mil estavam na Bahia.

Paula Moura Pinheiro entrevista, no Colégio dos Jesuítas, em Salvador, o professor Evergton Sales Souza, da Universidade Federal da Bahia. Divulgação.

Porém, mesmo depois da independência do Brasil, o tráfico de pessoas continuou e em velocidade maior. Até a abolição da escravatura, em 1888, um total de 2,5 milhões de africanos foram submetidos à barbárie. A partir de entrevistas com o especialista Carlos da Silva Júnior e o historiador João José Reis pode-se entender como esse crime se tornou um negócio lucrativo, as reações dos escravos, a formação dos quilombos, dos quais Palmares, em Alagoas, foi o maior de todos, chegando a ter 10 mil habitantes, durando 100 anos.

A seguir, veio o ciclo da cana-de-açúcar, sustentado graças à mão de obra escrava. “Houve engenhos de açúcar por todo o Brasil, mas os locais de maior concentração eram Pernambuco e Bahia”, diz Paula. As filmagens desse episódio ocorreram no engenho Cajaíba, em São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, onde foi entrevistado o historiador Fabrício Lyrio Santos, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. “Achei fascinante a marca portuguesa em Cachoeira e por ser, simultaneamente, um bastião tão forte da independência do Brasil. Eu gosto dessa ambivalência”, resume.

Ouro e diamantes

O quinto capítulo foi dedicado a Ouro Preto, Minas Gerais, e ao ciclo do ouro. A historiadora Júnia Furtado fala sobre os conflitos gerados pelos direitos de exploração das riquezas, incluindo a Guerra dos Emboabas, entre paulistas, que por terem liderado os movimentos das entradas e bandeiras, interiorizando o Brasil, reivindicavam a prioridade na exploração do ouro, e os representantes do rei. Ouro Preto abrigou os inconfidentes, entre eles, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que pregavam a separação de Portugal.

Já a história de Diamantina, então Arraial do Tijuco, é contada no sexto episódio. A época, a principal província diamantífera do mundo levou a coroa portuguesa a concentrar sob suas ordens a produção das pedras preciosas, tendo nomeado um contratador. Também é relatada a história de Chica da Silva, uma escrava, posteriormente alforriada, que foi companheira do contratador João Fernandes, com poderes sobre a vida na região.

Comparando Ouro Preto e Diamantina, Paula conta que se encantou mais pela cidade dos diamantes. “Ouro Preto é absolutamente deslumbrante. Só que achei Diamantina, de alguma forma, mais surpreendente, porque está mais longe, está mais isolada, tem uma beleza mais delicada. Não é tão opulenta como Ouro Preto, que é monumental, esmagadora. Diamantina é mais especial, inesperada”, afirma.

Entrevista com o historiador João José Reis, em Salvador, sobre o escravagismo no Brasil e as revoltas dos escravizados. Divulgação.

O Rio de Janeiro

Os dois últimos episódios são dedicados ao Rio de Janeiro. O primeiro, sobre a cidade que se tornou a capital da colônia em 1763, uma vitória do governador Gomes Freire de Andrade, e o segundo, sobre a mudança que ocorreu na localidade após a chegada da família real, em 1808, quando passou a ser a capital do império português.

Visita Guiada: a colonização do Brasil contada em oito capítulos
Sobre a capital carioca, Paula diz que foi o lugar mais complicado para as filmagens. “Achei o Rio muito tenso. Tenho família carioca, estive muitas vezes no Rio. É uma cidade maravilhosa, mas achei mais tensa que nunca. Tivemos que filmar com um segurança armado”, relata.

Sobre o que ficou por contar da história do Brasil, Paula diz que gostaria de filmar o norte do país, o que era o antigo vice-reinado do Maranhão e Grão-Pará. “Gostaria muito de ir para o Norte, para a Amazônia, que é imensa”, afirma, prevendo que isso dependerá do interesse e da curiosidade gerados pelos programas desta série.

Público Brasil

Bruno Berger

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